El Brujo ligou quando me preparava para dar cabo de uma barata na janela da área de serviço. o bicho – a barata, e não El Brujo – estava com sorte. Atendi o celular no mesmo momento em que o nojento inseto voou pela janela e para a noite timidamente chuvosa.
“Alô...”
“Então: parece que estamos com poucas opções. O Beirute de sempre, uma cerveja aqui em casa, ou um daqueles bares da moda onde podemos sentar para rir da cara dos playboys e patricinhas...O que você me diz?”
“Bem...”, suspirei. “Acho que é Beirute. As demais opções são caras ou claustrofóbicas...”
“Tal como imaginava: Beirute. Daqui a meia-hora. Aproveita e me devolve disco do Thelonius Monk. Do contrário corto a tua garganta com uma colher...”
Meia-hora mais tarde, lá estávamos nós, sentado de frente pra rua da comercial, comendo um quibe cada e encarando a primeira cerveja a despeito do frio noturno. Alguns rostos não eram estranhos. Outros deveriam sê-lo. Ignoramos o todo e falamos sobre a besteiras de sempre: o mundo em crise, as tragédias que vinham e voltavam, os ídolos que perderam a magia, as ilusões daqueles que amávamos, além do eterno rock’n’roll. Na terceira cerveja, El Brujo fez com que a realidade caísse sobre a mesa tal qual avião no rio Potomac.
“O que você faz com as tuas antigas paixões?”
“Que paixões”, respondi.
“Aquela coisa de paixão de adolescência, ou até mesmo paixões por pessoas que você não conhece pessoalmente...”
“Sei lá. Faz parte do todo, ou algo assim...”
El Brujo soltou uma gargalhada e sorveu o resto da cerveja em seu copo de mocotó.
“Que resposta de merda, hein?”, ele disse.
“E essas perguntas sobre paixão? Você começou...”
“Eu sei, eu sei. E você continua apaixonado pela Fabíula Nascimento?”
“Um pouco. Agora tô mais na da Jennifer Tilly...”
“Você escolhe a dedo, né?”
“Convenhamos: Jennifer Tilly é um tesão...Dá de dez em qualquer Bundchen da vida...”
“E ela tem uma irmã que também não é de se jogar fora...”
“Sei. Meg Tilly. Mas é a irmã tímida. Nem tem um corpão de mulher fatal. Já a Jennifer...”
“Porra...”
“Pois é...”
“Outro dia”, continuou El Brujo, “vi um filme com a mesma turminha do Amélie Poulain...uma história muito estranha passada no pós-Primeira Guerra...”
“Sei, ‘A Long Engagement’ ou algo assim. Passou na TNT outro dia. Bem legal, mas com a mesma estrutura do Amélie Poulain...”
“A mulher procura o cara por quem ela é apaixonada...”
“Isso...arma um escarcéu pra encontrar o sujeito. Até rouba documento do governo...”
“Mas é um filme interessante...Tem boas cenas...”
“Tem. Aquela parte das trincheiras é bem legal...”
“É...”
Nisso chega o Cícero e pergunta se queremos mais uma cerveja.
“Por favor”, responde El Brujo. “E o cardápio, por favor.”
“Aliás, acabei esquecendo o Thelonius Monk...”
“É nisso que dá estar apaixonado...”
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
A New Life...
Parece coisa de “Blade Runner”. Clima de filme noir, mas com fundo tropical made in GDF. Uma chuva que não pára, um frio perturbador, e uma vontade de permanecer horas na mesa do Beirute, bebendo cerveja, comendo quibe frito e jogando papo fora com os conhecidos. Agora que colaboro com uma rádio, não raro chamo El Brujo para tomar uma no bar, que fica ao lado, e comentar certas debilidades do passado. Não chegamos a conclusão alguma, e continuamos reclamando das mesmas pessoas, quando não de nós mesmos ou da tal da vida.
O garçom chega com mais uma cerveja e dois quibes. A chuva não dá moleza. E ainda tenho um monte de coisas para serem resolvidas. Mas é como diz a boa e velha máxima: "no retreat, no surrender"...
O garçom chega com mais uma cerveja e dois quibes. A chuva não dá moleza. E ainda tenho um monte de coisas para serem resolvidas. Mas é como diz a boa e velha máxima: "no retreat, no surrender"...
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
Diálogo com Estranhos...
Fui ao Beirute da Asa Norte para tomar uma cerveja com El Brujo. Lá pelas tantas, com os neurônios a nadar em uma piscina etílica, começo a conversar com uma mulher mais jovem. Jornalista como eu. Falamos de literatura, de cinema, de pessoas que não gostam de Brasília. E eis que ela solta a primeira bomba (na forma de uma pergunta, e não de um pum, caro leitor):
“Como é SER divorciado???”
A princípio, fiquei com aquela cara de debilitado mental, olhando para os lados para ter certeza de que não estava escutando vozes de um Além de bêbados.
“Como é o quê?...”
“É. Como é SER divorciado? Você sente falta de algo? Você tem uma rotina nova? Como é?”
“Não, não. Tá tudo normal. Normal mesmo...”
“Cadê a tua aliança???”
Dear Lord...
Tirei meu colar de penduricalhos e mostrei a aliança que dele pendia. A mulher não acreditou.
“Você ainda guarda isso?...”
“Qual o problema”, perguntei.
“Muito estranho, muito estranho. Isso não traz maus fluidos, não?”
“Isso depende se você vai estar na minha cama pela manhã...”
Isso era uma piada. Mas ela não riu, prova de que não entendeu picas (isto, aliás, também foi uma piada, caro leitor...).
“Como é SER divorciado???”
A princípio, fiquei com aquela cara de debilitado mental, olhando para os lados para ter certeza de que não estava escutando vozes de um Além de bêbados.
“Como é o quê?...”
“É. Como é SER divorciado? Você sente falta de algo? Você tem uma rotina nova? Como é?”
“Não, não. Tá tudo normal. Normal mesmo...”
“Cadê a tua aliança???”
Dear Lord...
Tirei meu colar de penduricalhos e mostrei a aliança que dele pendia. A mulher não acreditou.
“Você ainda guarda isso?...”
“Qual o problema”, perguntei.
“Muito estranho, muito estranho. Isso não traz maus fluidos, não?”
“Isso depende se você vai estar na minha cama pela manhã...”
Isso era uma piada. Mas ela não riu, prova de que não entendeu picas (isto, aliás, também foi uma piada, caro leitor...).
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
A tal amizade nessas horas...
Não que eu tenha passado a informação pela rede de computadores ou feito das tripas coração para que um pequeno texto explicativo fosse publicado no Diário Oficial. Poucos souberam da separação e do divórcio. Alguns já vinham observando a situação (de perto ou de longe); outros souberam por mim ou pela ex. Mas o fato é que a maioria dos nossos conhecidos só soube meses depois. Convenhamos: não é algo que você anuncia da mesma maneira que o faz quando alguém nasce ou veste o paletó de madeira. E mais: alguns pouco ligariam pra isso.
quarta-feira, 12 de novembro de 2008
Acabou em pizza...
Oficializamos o divórcio em um cartório da Asa Sul. Estavam presentes as partes interessadas, as testemunhas, a advogada e os demais oficiais de justiça. O escrevente tinha um nome estranho. A operação custou 60 mangos – com direito a piadinha do responsável pelo caixa do cartório. Também fizeram piadinhas – que, estas sim, surtiram mais efeito – o escrevente (que, aliás, era a cara do vilão do novo filme do 007...) e a advogada. A papelada só tinha um longo páragrafo, com palavras que nem eu utilizaria em meus textos.
Piadinha vai, piadinha vem, e tivemos de marcar um novo encontro no cartório para assinar tudo novamente; isso porque, segundo o tal vilão do 007, um livro de registro de cartório só pode ter, no máximo, 200 páginas, e a nossa papelada continha as páginas 201 e 202. São os tais grandes perfumes nos tais pequenos frascos. Em outras palavras, menos fashion, pequenos detalhes que criam grandes merdas e enormes dores de cabeça.
O fato é o seguinte: sou oficialmente mais um divorciado em Hardcore Brasília.
À noite, já no apartamento, que ainda dividimos, comemoramos o fim da papelada com uma deliciosa pizza metade vegetariana, metade calabresa. Eu paguei.
Piadinha vai, piadinha vem, e tivemos de marcar um novo encontro no cartório para assinar tudo novamente; isso porque, segundo o tal vilão do 007, um livro de registro de cartório só pode ter, no máximo, 200 páginas, e a nossa papelada continha as páginas 201 e 202. São os tais grandes perfumes nos tais pequenos frascos. Em outras palavras, menos fashion, pequenos detalhes que criam grandes merdas e enormes dores de cabeça.
O fato é o seguinte: sou oficialmente mais um divorciado em Hardcore Brasília.
À noite, já no apartamento, que ainda dividimos, comemoramos o fim da papelada com uma deliciosa pizza metade vegetariana, metade calabresa. Eu paguei.
Operação Vácuo do Divórcio
Eu estava na casa do Bruxo, comendo um sanduíche de salaminho e bebendo Mate Leão, quando adentramos, ao som de Judas Priest, um terreno jamais explorado por nossas mentes no que concerne ao divórcio. O fato é que não raro eu me sinto catapultado para uma dimensão monótona, sem barulho, movimento ou sensação de perigo. Nada acontece e a imobilidade me parece normal. Nada me vem à mente quando penso no futuro. Tento viver um dia de cada vez, evitando planos e fomentando sonhos. Às vezes é um saco; às vezes é apenas uma sucessão de pensamentos que não fazem muito sentido. Dane-se: isso tudo deve fazer sentido em algum momento.
Comi mais um sanduíche. Depois descemos e fomos beber uma cerveja no boteco.
Comi mais um sanduíche. Depois descemos e fomos beber uma cerveja no boteco.
Meus Quatro Dias Sozinho
A ex viajou. Foi pra São Paulo a trabalho, com direito a hospedagem no Hilton. De minha parte, ainda estava saindo de um quadro de febre e sinusite, mas já apresentava sinais de calmaria, a ponto de sair todo dia para resolver algum assunto. Assisti a filmes, desenhei, escutei música, baixei muita porcaria da internet, saí para beber no sábado em bares freqüentados por hippies e pagodeiros, falei muita besteira (isso não muda tão rápido assim depois de um divórcio), comi no Sky’s, escrevi, arrumei a casa, lavei a louça.
No domingo, após mais um temporal, saí em direção ao aeroporto para buscar a ex. O lugar estava apinhado, eu estava cansado. Comprei uma Coca-Cola e fiquei observando os casos bizarros da normalidade social: velhos com pigarro, crianças obesas, peruas de plástico com seus Blackberries bling-bling. Um circo a cada cinco metros.
O avião chegou no horário. A ex estava cansada. Eu ainda estava cansado. Durante o trajeto de volta, ela falou e eu permaneci calado, emitindo um grunhido aqui e ali.
E assim acabaram meus quatro dias de solidão.
No domingo, após mais um temporal, saí em direção ao aeroporto para buscar a ex. O lugar estava apinhado, eu estava cansado. Comprei uma Coca-Cola e fiquei observando os casos bizarros da normalidade social: velhos com pigarro, crianças obesas, peruas de plástico com seus Blackberries bling-bling. Um circo a cada cinco metros.
O avião chegou no horário. A ex estava cansada. Eu ainda estava cansado. Durante o trajeto de volta, ela falou e eu permaneci calado, emitindo um grunhido aqui e ali.
E assim acabaram meus quatro dias de solidão.
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