Fui pego de surpresa. Uma proposta de fim de semana em Teresópolis. Casais de amigos, música, comida, bebida e boa conversa; ou pelo menos essa era a proposta. Respondi que iria pensar. Fui à PUC, peguei um trânsito infernal e, quando voltei pra casa, respondi que não iria, dando a velha desculpa do "valeu, mas acho que vou ficar por aqui...". Certamente não foi a melhor das desculpas. Mas convenhamos: não iria segurar três velas no topo de uma montanha. Não iria ouvir conselhos entre uma e outra piada. Não iria fazer os mesmos planos afoitos e entusiasmados de reencontros, reuniões, viagens e festas de réveillon.
Preferi ficar em Pitboyland, continuar minhas "coisas", dar uma passada no Empório e assistir a filmes antigos. E assim foi, meus amiguinhos. No fim de semana em questão, resolvi assuntos pendentes, me embebedei no mais famoso bar da rua Maria Quitéria e quase queimei minhas retinas ao longo de um festival de clássicos estrelados por Bogart, Bacall, Veidt, Tracy e Astaire.
Os prazeres de Teresópolis ficariam para depois.
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
terça-feira, 8 de setembro de 2009
En Passant...
Por uma dessas artimanhas do Destino, possuo dois discos da banda inglesa Transvision Vamp. A vocalista do Transvision Vamp – uma louraça belzebú made in Albion – me faz lembrar de uma garota que conheci melhor no alvorecer do Novo Milênio; irmã de uma outra garota que conheci "bem melhor" no fim do milênio anterior. Ambas brunettes. A primeira garota em questão era chata, mimada, tinha uma voz irritante, trejeitos irritantes, e uma propensão – perigosa, senão letal – para bebida, drogas e sexo inconseqüente. A segunda era mais esperta, mas queria romance e tal. Perdi contatos com as duas, mas não perdi os discos do Transvision Vamp.
terça-feira, 1 de setembro de 2009
Ladras, porém jeitosinhas...
Era um golpe envolvendo o seguro das coisas roubadas que não foram roubadas. Aconteceu em Ipanema e as rés eram duas jovens advogadas made in Camelot. Rebecca e Shanti (sic). Brunette e loira, respectivamente. Foram pegas no flagra, mentindo, graças ao savoir-faire tupiniquim da 14a D.P. (Leblon City). Tiveram seus passaportes confiscados, passaram uma curta temporada na prisão de muchachas (infelizmente, em nada parecida com aquele filme que o SBT exibia na madrugada do sábado para domingo...Suculento, admito) e receberam uma sentença (ou algo que o valha). Nessa novela toda, nada de choro ou de drama shakespeariano. Ambas passaram por tudo com aqueles olhos esbugalhados e aquele ar de "não-sei-oque-está-aconteendo-nessa-Ilha-da-Fantasia", típicos de turistas do hemisfério Norte.
No meio de uma noite regada a White Horse e Original (sim, aqui tem...), liguei para El Brujo pra saber se ele tinha ouvido falar na história policial.
"Pois é. Eu vi na televisão, mas queria ter visto no programa do Alborghetti..."
"Com certeza", disse eu. "Ou então no saudoso Aqui e Agora, com o Gil Gomes entrevistando em inglês..."
"Heeere....and Now."
"Mas como é que essas débeis mentais pensam em fazer isso aqui, né? Logo na terra do Doutorado em Golpe, porra. Tinham mesmo que se dar mal..."
"É. Acham que podem enganar qualquer um. E nem se deram ao trabalho de colocar os pertences em outro quarto, ou algo assim."
"Não passam de ladras..."
"...porém ladras jeitosinhas, diga-se de passagem..."
"Concordo."
No meio de uma noite regada a White Horse e Original (sim, aqui tem...), liguei para El Brujo pra saber se ele tinha ouvido falar na história policial.
"Pois é. Eu vi na televisão, mas queria ter visto no programa do Alborghetti..."
"Com certeza", disse eu. "Ou então no saudoso Aqui e Agora, com o Gil Gomes entrevistando em inglês..."
"Heeere....and Now."
"Mas como é que essas débeis mentais pensam em fazer isso aqui, né? Logo na terra do Doutorado em Golpe, porra. Tinham mesmo que se dar mal..."
"É. Acham que podem enganar qualquer um. E nem se deram ao trabalho de colocar os pertences em outro quarto, ou algo assim."
"Não passam de ladras..."
"...porém ladras jeitosinhas, diga-se de passagem..."
"Concordo."
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
Tempo Morto
Ainda chuviscava quando adentrei minha antiga faculdade de Jornalismo, às margens da Lagoa. Nenhum rosto conhecido, apenas mais uma leva de jovens sonhando com um futuro brilhante e a praia do final-de-semana. Na sala de atendimento e informações, um casal de alunos fazia algum tipo de serviço pro-bono, respondendo, sem muito entusiasmo, às perguntas mais freqüentes.
Após um ou dois minutos de espera, fui atendido pelo rapaz que se parecia com uma mistura de renegado emo e travesti surrado. Perguntei se a faculdade oferecia algum tipo de mestrado em Comunicação Social. Entre uma e outra cutucada no nariz, o sujeito respondeu que a faculdade não oferecia Mestrado, apenas um MBA. Em seguida, leu o texto exibido pela página do site da faculdade. Enquanto escutava o enfadonho recital, eu olhava para baixo, tentando conter o sono e pensando no que poderia fazer no caminho de volta pra casa. Findo o lenga-lenga do emo, agradeci as informações, desejei bom-dia e me pirulitei chuva afora.
Subi a rua interna em direção à Visconde de Pirajá, andei até o Bar 20 e pedi um suco grande de manga.
Tinha a impressão de estar em algum vácuo, sem saber o que fazer e incapaz de tomar uma decisão lógica. Um turbilhão de informações, imagens, sons e sensações rodava em meu cérebro tal qual pirulito de porta de barbeiro em filme de mafioso. Nenhum movimento de minha parte. Nenhum próximo passo. Sozinho com um copo de suco de manga na mão, eu me sentia o perfeito inútil; o pária que não conseguia alcançar as expectativas alheias. O renegado que sempre atraía alternados olhares de suspeita, desconfiança e desprezo.
Cinco mangos pelo suco – mais a caixinha, obrigado – e eu comecei a andar feito um zumbi. De volta para casa, atravessando o canal do Jardim de Alá Akbar, colocando a chave na abertura do portão cinza, cruzando a portaria, entrando no elevador, entrando em casa, caindo na cama, fechando os olhos e desejando que aquilo parasse por mais algum tempo.
Após um ou dois minutos de espera, fui atendido pelo rapaz que se parecia com uma mistura de renegado emo e travesti surrado. Perguntei se a faculdade oferecia algum tipo de mestrado em Comunicação Social. Entre uma e outra cutucada no nariz, o sujeito respondeu que a faculdade não oferecia Mestrado, apenas um MBA. Em seguida, leu o texto exibido pela página do site da faculdade. Enquanto escutava o enfadonho recital, eu olhava para baixo, tentando conter o sono e pensando no que poderia fazer no caminho de volta pra casa. Findo o lenga-lenga do emo, agradeci as informações, desejei bom-dia e me pirulitei chuva afora.
Subi a rua interna em direção à Visconde de Pirajá, andei até o Bar 20 e pedi um suco grande de manga.
Tinha a impressão de estar em algum vácuo, sem saber o que fazer e incapaz de tomar uma decisão lógica. Um turbilhão de informações, imagens, sons e sensações rodava em meu cérebro tal qual pirulito de porta de barbeiro em filme de mafioso. Nenhum movimento de minha parte. Nenhum próximo passo. Sozinho com um copo de suco de manga na mão, eu me sentia o perfeito inútil; o pária que não conseguia alcançar as expectativas alheias. O renegado que sempre atraía alternados olhares de suspeita, desconfiança e desprezo.
Cinco mangos pelo suco – mais a caixinha, obrigado – e eu comecei a andar feito um zumbi. De volta para casa, atravessando o canal do Jardim de Alá Akbar, colocando a chave na abertura do portão cinza, cruzando a portaria, entrando no elevador, entrando em casa, caindo na cama, fechando os olhos e desejando que aquilo parasse por mais algum tempo.
quinta-feira, 20 de agosto de 2009
Finais Iniciados
Passei pela Travessa para comprar "The Proud Highway" do Hunter S. Thompson que havia encontrado no dia anterior e que estava em promoção. Acabei descobrindo que um colega meu de faculdade trabalha na livraria. Jornalista que é vendedor durante a baixa temporada e animador de campos de férias e cruzeiros mundo afora. Prova número UM.
Almocei uns pastéis e uma truta vegetariana no Degrau. Na mesa ao lado, um grupo de cinco senhores conversava em voz alta sobre o passado, demonstrando, por A mais B, que esse mesmo passado era melhor e tal. Prova número DOIS.
Tem dia em que eu realmente não quero chegar a nenhum dos dois casos acima citados. Eu adoro escrever e não tenho essa veia de vendedor alegre e descontraído, que acha que o cliente tem sempre razão. E eu não quero comemorar meus 50 ou 60 invernos relembrando o passado como algo amargo demais para ser exposto na mesma vitrine do presente. E porque diabos eu divago sobre esses dois meros exemplos? Nem eu sei ao certo. Acho que é sinal de velhice precoce, ou incerteza quanto às minhas assaz desprezadas funções de jornalista. sinal da readaptação.
Almocei uns pastéis e uma truta vegetariana no Degrau. Na mesa ao lado, um grupo de cinco senhores conversava em voz alta sobre o passado, demonstrando, por A mais B, que esse mesmo passado era melhor e tal. Prova número DOIS.
Tem dia em que eu realmente não quero chegar a nenhum dos dois casos acima citados. Eu adoro escrever e não tenho essa veia de vendedor alegre e descontraído, que acha que o cliente tem sempre razão. E eu não quero comemorar meus 50 ou 60 invernos relembrando o passado como algo amargo demais para ser exposto na mesma vitrine do presente. E porque diabos eu divago sobre esses dois meros exemplos? Nem eu sei ao certo. Acho que é sinal de velhice precoce, ou incerteza quanto às minhas assaz desprezadas funções de jornalista. sinal da readaptação.
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
Palavras de uma brisa morna na boca de uma mente fria
Desliguei a televisão às nove da noite, me servi de vinho e coloquei a trilha sonora do "Apocalypse Now" no som do quarto.
O rádio fica ligado a maior parte do dia, seja na emissora de notícias, seja na de música clássica. Outro dia, escutei uma hora de um compositor italiano (Luciano Berrio, talvez seja isso...) que me fez lembrar da trilha sonora do "2001" do Kubrick. Se bobear, era o mesmo cara.
Às vezes, esse tipo de momento me dá vontade de chorar. Mas aí eu penso mais uma vez, e concluo que não vai adiantar muita coisa. Não vai ser um desabafo válido; apenas uma água salgada saindo dos meus olhos, resultado de vários processos químicos cerebrais cujas explicações você encontra na Wikipedia.
É, a rádio realmente me salva. Pelo menos à noite.
O vinho também salva, mas com a rádio você não precisa escovar os dentes depois de escutar um Wagner, um Tchaikovsky, ou um Rossini.
O rádio fica ligado a maior parte do dia, seja na emissora de notícias, seja na de música clássica. Outro dia, escutei uma hora de um compositor italiano (Luciano Berrio, talvez seja isso...) que me fez lembrar da trilha sonora do "2001" do Kubrick. Se bobear, era o mesmo cara.
Às vezes, esse tipo de momento me dá vontade de chorar. Mas aí eu penso mais uma vez, e concluo que não vai adiantar muita coisa. Não vai ser um desabafo válido; apenas uma água salgada saindo dos meus olhos, resultado de vários processos químicos cerebrais cujas explicações você encontra na Wikipedia.
É, a rádio realmente me salva. Pelo menos à noite.
O vinho também salva, mas com a rádio você não precisa escovar os dentes depois de escutar um Wagner, um Tchaikovsky, ou um Rossini.
Diálogo de dois alvos fáceis em uma das mesas do Empório
(Rua Maria Quitéria, Pitboyland – 20:30)
"Boa noite..."
"Boa noite. Você vê dois chopps pra gente, por favor?"
"É pra já..."
(sons de cigarros sendo acesos ao som do intenso tráfego e ao som de alguma música da Blondie...)
"Mas como eu dizia, eu acho que era uma indireta..."
"Pode ser apenas atua imaginação. Você quer que seja uma indireta..."
"Talvez..."
"Dois chopps..."
"Valeu..."
"Havia uma certa cautela nas frases."
"Isso também pode ser tua imaginação. Você criando todo um cenário e tal..."
"Porra, você realmente não tá ajudando muito, hein?"
"Só tô dizendo o que eu acho, só isso."
"Valeu, isso faz A diferença em uma cidade como esta..."
"Ainda se adaptando?"
"Readaptando."
"Existe um certo charme – um plano B dos divorciados – em não se adaptar completamente a uma cidade. Mesmo se você já conhece essa cidade como a palma da sua mão."
"Não é o meu caso..."
"Mas é fato que você não é muito fã de Pitboyland."
"Tem seus prós e seus contras, como qualquer outra cidade. Gente boa e gente ruim. Dias agradáveis e dias péssimos."
"Mas desde que você chegou, a tua cabeça tá meio desligada do contexto. Como se alguma ansiedade andasse contigo por onde quer que você vá."
"Uau! E você nem tomou metade do chopp, hein?"
"Pois é..."
"Minha cabeça às vezes tá em outro lugar, em assuntos agradáveis mas que foram deixados pela metade. Outro dia, vi um filme de ficção científica no qual o protagonista vende a alma para dar uma espiada em alguns minutos do futuro. É claro que a partir dali tudo fica diferente, cheio de ação e reviravolta. Mas é algo a se pensar."
"O futuro?"
"Apenas alguns minutos do futuro."
"Não vale a minha alma."
"Nem a minha, mas não é algo que você decide em um segundo."
"Com certeza."
"É o tipo de sacada precisa à qual você só tem direito raríssimas vezes ao longo de uma vida."
"Ok. Você certamente vai precisar de mais chopp. Mais dois chopps, por favor. Mas então: o que diabos você tem feito durante a semana?"
"O de sempre. Maratona de currículos, aluguel de filmes, chopp no Clipper, aposta na Mega-Sena e conversa com o vendedor de balas da esquina. Além dos textos, é claro."
"...E Empório nas noites de quarta..."
"Velhos hábitos não morrem tão fácil..."
"Ainda bem."
(Dez chopps – cada – mais tarde, ao som do "Howlin’ to the Moon" dos Ramones, os dois alvos fáceis saem do nobre estabelecimento e rastejam, tortos, pela Visconde de Pirajá em direção ao Leblon. Nem mesmo a mais astuta das agências de inteligência é capaz de saber o que acontecerá a seguir...)
"Boa noite..."
"Boa noite. Você vê dois chopps pra gente, por favor?"
"É pra já..."
(sons de cigarros sendo acesos ao som do intenso tráfego e ao som de alguma música da Blondie...)
"Mas como eu dizia, eu acho que era uma indireta..."
"Pode ser apenas atua imaginação. Você quer que seja uma indireta..."
"Talvez..."
"Dois chopps..."
"Valeu..."
"Havia uma certa cautela nas frases."
"Isso também pode ser tua imaginação. Você criando todo um cenário e tal..."
"Porra, você realmente não tá ajudando muito, hein?"
"Só tô dizendo o que eu acho, só isso."
"Valeu, isso faz A diferença em uma cidade como esta..."
"Ainda se adaptando?"
"Readaptando."
"Existe um certo charme – um plano B dos divorciados – em não se adaptar completamente a uma cidade. Mesmo se você já conhece essa cidade como a palma da sua mão."
"Não é o meu caso..."
"Mas é fato que você não é muito fã de Pitboyland."
"Tem seus prós e seus contras, como qualquer outra cidade. Gente boa e gente ruim. Dias agradáveis e dias péssimos."
"Mas desde que você chegou, a tua cabeça tá meio desligada do contexto. Como se alguma ansiedade andasse contigo por onde quer que você vá."
"Uau! E você nem tomou metade do chopp, hein?"
"Pois é..."
"Minha cabeça às vezes tá em outro lugar, em assuntos agradáveis mas que foram deixados pela metade. Outro dia, vi um filme de ficção científica no qual o protagonista vende a alma para dar uma espiada em alguns minutos do futuro. É claro que a partir dali tudo fica diferente, cheio de ação e reviravolta. Mas é algo a se pensar."
"O futuro?"
"Apenas alguns minutos do futuro."
"Não vale a minha alma."
"Nem a minha, mas não é algo que você decide em um segundo."
"Com certeza."
"É o tipo de sacada precisa à qual você só tem direito raríssimas vezes ao longo de uma vida."
"Ok. Você certamente vai precisar de mais chopp. Mais dois chopps, por favor. Mas então: o que diabos você tem feito durante a semana?"
"O de sempre. Maratona de currículos, aluguel de filmes, chopp no Clipper, aposta na Mega-Sena e conversa com o vendedor de balas da esquina. Além dos textos, é claro."
"...E Empório nas noites de quarta..."
"Velhos hábitos não morrem tão fácil..."
"Ainda bem."
(Dez chopps – cada – mais tarde, ao som do "Howlin’ to the Moon" dos Ramones, os dois alvos fáceis saem do nobre estabelecimento e rastejam, tortos, pela Visconde de Pirajá em direção ao Leblon. Nem mesmo a mais astuta das agências de inteligência é capaz de saber o que acontecerá a seguir...)
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