Estava a caminho do Rio Sul no balanço violento de um 583 da vida, olhando para os tipos de Ipanema e Copacabana, e tentando descobrir qual a razão de tudo aquilo – se é que havia razão em Pitboyland.
O ônibus parara no ponto em frente à papelaria Cruz, na Nossa Senhora. Pela janela, percebi que havia uma pequena confusão na calçada. Um pequeno grupo de transeuntes se aglomerava ao redor da entrada de uma agência bancária. Aparentemente, uma senhora idosa caíra e, devido ao seu próprio excesso de peso, tivera dificuldade em se levantar da calçada. Logo, dois ou três pessoas lhe prestaram socorro e ela pôde, a duras penas, retomar sua posição relativamente erétil.
O elemento que chamara minha atenção estava, entretanto, acomodado ao lado da porta da agência. Sob um grosso e largo pedaço de cartolina, jazia, nos braços de um Morfeu mais democrático, um morador de rua, que pouco se abalara com o burburinho provocado pela queda da obesa senhora. Sequer levantou seu cobertor em celulose para verificar que bagunça era aquela que ousava perturbar seu sacrossanto e diurno sono. Sequer pôs o rosto para fora e soltou meia-dúzia de palavrões. Educado; mais, talvez, que aqueles que demoraram no auxílio à idosa.
E assim foi.
Vinte segundos se passaram, e o 583 seguiu sua rota.
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
Carta Aberta ao meu Anjo da Guarda
Caro e Alado Senhor,
Venho, por meio desta, expressar minha surpresa ante uma série de questionamentos ocorridos esta semana, por ocasião de mais uma rodada de cervejas com conhecidos no Beirute da Asa Norte. O fato é que começamos a falar sobre a questão de um anjo da guarda em nossa vidas; e isso independentemente de alguns serem religiosos e outros, ateus convictos. Quando chegou a minha vez de dar minha humilde opinião, a coisa toda foi para o mais absurdo dos beleléus.
Afirmei acreditar, por muito tempo, que meu anjo da guarda era um tal de Uriel (ou Zuriel, dependendo da fonte...). Este último, cujo nome significa "Fogo de Deus", tem bom currículo: querubim, Regente do Sol, Chama de Deus, anjo da presença, responsável por Tartarus (Hades, o Inferno; algo como um carcereiro-mor, responsável pelo aprisionamento dos demônios,dos anjos caídos e afins...), arcanjo da salvação, o mais importante dos anjos no Dia do Julgamento, regente do mês de setembro, anjo que comanda o trovão e o terror; dizem que ajudou a enterrar Adão e Abel no Paraíso, e que foi o anjo que entregou a Noé a mensagem dando conta do Dilúvio próximo. Foi reprovado no Concílio de Roma em 745, mas agora é Santo Uriel, cujo símbolo é uma mão aberta segurando uma chama.
Nada mau, penso eu, para um anjo da guarda.
Mas aí, semanas atrás, recebi um desses emails que me davam a oportunidade de conhecer quem era meu anjo da guarda. Fiz o teste, meio desconfiado das perguntas, e surpreso fiquei quando o resultado deu um anjo de nome Kamael (ou Camael, ou Camiel, ou Kemuel, ou Camniel, ou Cancel, ainda dependendo das fontes...). E olha que esse também não é de se ignorar.
"Aquele que vê Deus" (este é o significado do nome), Kamael é chefe da Ordem dos Poderes e um dos sefiroth. Oriundo das regiões ínferas e possuidor do título de Conde Palatino (ou do Palatinado...), Kamael, quando invocado, surge na forma de um leopardo no topo de um rochedo. Ele personifica a justiça divina, é senhor do planeta Marte e, segundo a mitologia dos Druidas, é Deus da Guerra. Para alguns, é o anjo que lutou com Jacó, para outros, identificado como Gabriel, o anjo que apareceu ante Jesus para Lhe dar força durante Sua agonia no Jardim de Gethsemane.
Importante, não?
De qualquer forma, só tenho a agradecer ao meu anjo da guarda por eu ainda respirar e não ter batido as botas em algum acidente de trânsito, ou por causa de bala perdida, ou até em razão de algum acidente doméstico. As oportunidades, o senhor sabe bem, não faltaram. Só por isso, repito, lhe sou infinitamente grato. Espero, ademais, que tal relação dure por anos a fio.
Atenciosamente,
K.
Venho, por meio desta, expressar minha surpresa ante uma série de questionamentos ocorridos esta semana, por ocasião de mais uma rodada de cervejas com conhecidos no Beirute da Asa Norte. O fato é que começamos a falar sobre a questão de um anjo da guarda em nossa vidas; e isso independentemente de alguns serem religiosos e outros, ateus convictos. Quando chegou a minha vez de dar minha humilde opinião, a coisa toda foi para o mais absurdo dos beleléus.
Afirmei acreditar, por muito tempo, que meu anjo da guarda era um tal de Uriel (ou Zuriel, dependendo da fonte...). Este último, cujo nome significa "Fogo de Deus", tem bom currículo: querubim, Regente do Sol, Chama de Deus, anjo da presença, responsável por Tartarus (Hades, o Inferno; algo como um carcereiro-mor, responsável pelo aprisionamento dos demônios,dos anjos caídos e afins...), arcanjo da salvação, o mais importante dos anjos no Dia do Julgamento, regente do mês de setembro, anjo que comanda o trovão e o terror; dizem que ajudou a enterrar Adão e Abel no Paraíso, e que foi o anjo que entregou a Noé a mensagem dando conta do Dilúvio próximo. Foi reprovado no Concílio de Roma em 745, mas agora é Santo Uriel, cujo símbolo é uma mão aberta segurando uma chama.
Nada mau, penso eu, para um anjo da guarda.
Mas aí, semanas atrás, recebi um desses emails que me davam a oportunidade de conhecer quem era meu anjo da guarda. Fiz o teste, meio desconfiado das perguntas, e surpreso fiquei quando o resultado deu um anjo de nome Kamael (ou Camael, ou Camiel, ou Kemuel, ou Camniel, ou Cancel, ainda dependendo das fontes...). E olha que esse também não é de se ignorar.
"Aquele que vê Deus" (este é o significado do nome), Kamael é chefe da Ordem dos Poderes e um dos sefiroth. Oriundo das regiões ínferas e possuidor do título de Conde Palatino (ou do Palatinado...), Kamael, quando invocado, surge na forma de um leopardo no topo de um rochedo. Ele personifica a justiça divina, é senhor do planeta Marte e, segundo a mitologia dos Druidas, é Deus da Guerra. Para alguns, é o anjo que lutou com Jacó, para outros, identificado como Gabriel, o anjo que apareceu ante Jesus para Lhe dar força durante Sua agonia no Jardim de Gethsemane.
Importante, não?
De qualquer forma, só tenho a agradecer ao meu anjo da guarda por eu ainda respirar e não ter batido as botas em algum acidente de trânsito, ou por causa de bala perdida, ou até em razão de algum acidente doméstico. As oportunidades, o senhor sabe bem, não faltaram. Só por isso, repito, lhe sou infinitamente grato. Espero, ademais, que tal relação dure por anos a fio.
Atenciosamente,
K.
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
Asfalto Noturno (algo curto e grosso para os entendidos...)
O taxista tinha um bafo podre e o interior do veículo – seus bancos, seu cinzeiro, seu rádio, seu porta-luvas, seu tudo – exalava um fedor de maconha a ponto de eu me perguntar se minha sorte estava REALMENTE mudando assim que os primeiros e inconfundíveis acordes de "You’re The Inspiration", do Chicago, invadiram o tenebroso ambiente móvel.
Se chegasse em casa inteiro, me daria por satisfeito.
Se chegasse em casa inteiro, me daria por satisfeito.
Teresópolis was a No Go...
Fui pego de surpresa. Uma proposta de fim de semana em Teresópolis. Casais de amigos, música, comida, bebida e boa conversa; ou pelo menos essa era a proposta. Respondi que iria pensar. Fui à PUC, peguei um trânsito infernal e, quando voltei pra casa, respondi que não iria, dando a velha desculpa do "valeu, mas acho que vou ficar por aqui...". Certamente não foi a melhor das desculpas. Mas convenhamos: não iria segurar três velas no topo de uma montanha. Não iria ouvir conselhos entre uma e outra piada. Não iria fazer os mesmos planos afoitos e entusiasmados de reencontros, reuniões, viagens e festas de réveillon.
Preferi ficar em Pitboyland, continuar minhas "coisas", dar uma passada no Empório e assistir a filmes antigos. E assim foi, meus amiguinhos. No fim de semana em questão, resolvi assuntos pendentes, me embebedei no mais famoso bar da rua Maria Quitéria e quase queimei minhas retinas ao longo de um festival de clássicos estrelados por Bogart, Bacall, Veidt, Tracy e Astaire.
Os prazeres de Teresópolis ficariam para depois.
Preferi ficar em Pitboyland, continuar minhas "coisas", dar uma passada no Empório e assistir a filmes antigos. E assim foi, meus amiguinhos. No fim de semana em questão, resolvi assuntos pendentes, me embebedei no mais famoso bar da rua Maria Quitéria e quase queimei minhas retinas ao longo de um festival de clássicos estrelados por Bogart, Bacall, Veidt, Tracy e Astaire.
Os prazeres de Teresópolis ficariam para depois.
terça-feira, 8 de setembro de 2009
En Passant...
Por uma dessas artimanhas do Destino, possuo dois discos da banda inglesa Transvision Vamp. A vocalista do Transvision Vamp – uma louraça belzebú made in Albion – me faz lembrar de uma garota que conheci melhor no alvorecer do Novo Milênio; irmã de uma outra garota que conheci "bem melhor" no fim do milênio anterior. Ambas brunettes. A primeira garota em questão era chata, mimada, tinha uma voz irritante, trejeitos irritantes, e uma propensão – perigosa, senão letal – para bebida, drogas e sexo inconseqüente. A segunda era mais esperta, mas queria romance e tal. Perdi contatos com as duas, mas não perdi os discos do Transvision Vamp.
terça-feira, 1 de setembro de 2009
Ladras, porém jeitosinhas...
Era um golpe envolvendo o seguro das coisas roubadas que não foram roubadas. Aconteceu em Ipanema e as rés eram duas jovens advogadas made in Camelot. Rebecca e Shanti (sic). Brunette e loira, respectivamente. Foram pegas no flagra, mentindo, graças ao savoir-faire tupiniquim da 14a D.P. (Leblon City). Tiveram seus passaportes confiscados, passaram uma curta temporada na prisão de muchachas (infelizmente, em nada parecida com aquele filme que o SBT exibia na madrugada do sábado para domingo...Suculento, admito) e receberam uma sentença (ou algo que o valha). Nessa novela toda, nada de choro ou de drama shakespeariano. Ambas passaram por tudo com aqueles olhos esbugalhados e aquele ar de "não-sei-oque-está-aconteendo-nessa-Ilha-da-Fantasia", típicos de turistas do hemisfério Norte.
No meio de uma noite regada a White Horse e Original (sim, aqui tem...), liguei para El Brujo pra saber se ele tinha ouvido falar na história policial.
"Pois é. Eu vi na televisão, mas queria ter visto no programa do Alborghetti..."
"Com certeza", disse eu. "Ou então no saudoso Aqui e Agora, com o Gil Gomes entrevistando em inglês..."
"Heeere....and Now."
"Mas como é que essas débeis mentais pensam em fazer isso aqui, né? Logo na terra do Doutorado em Golpe, porra. Tinham mesmo que se dar mal..."
"É. Acham que podem enganar qualquer um. E nem se deram ao trabalho de colocar os pertences em outro quarto, ou algo assim."
"Não passam de ladras..."
"...porém ladras jeitosinhas, diga-se de passagem..."
"Concordo."
No meio de uma noite regada a White Horse e Original (sim, aqui tem...), liguei para El Brujo pra saber se ele tinha ouvido falar na história policial.
"Pois é. Eu vi na televisão, mas queria ter visto no programa do Alborghetti..."
"Com certeza", disse eu. "Ou então no saudoso Aqui e Agora, com o Gil Gomes entrevistando em inglês..."
"Heeere....and Now."
"Mas como é que essas débeis mentais pensam em fazer isso aqui, né? Logo na terra do Doutorado em Golpe, porra. Tinham mesmo que se dar mal..."
"É. Acham que podem enganar qualquer um. E nem se deram ao trabalho de colocar os pertences em outro quarto, ou algo assim."
"Não passam de ladras..."
"...porém ladras jeitosinhas, diga-se de passagem..."
"Concordo."
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
Tempo Morto
Ainda chuviscava quando adentrei minha antiga faculdade de Jornalismo, às margens da Lagoa. Nenhum rosto conhecido, apenas mais uma leva de jovens sonhando com um futuro brilhante e a praia do final-de-semana. Na sala de atendimento e informações, um casal de alunos fazia algum tipo de serviço pro-bono, respondendo, sem muito entusiasmo, às perguntas mais freqüentes.
Após um ou dois minutos de espera, fui atendido pelo rapaz que se parecia com uma mistura de renegado emo e travesti surrado. Perguntei se a faculdade oferecia algum tipo de mestrado em Comunicação Social. Entre uma e outra cutucada no nariz, o sujeito respondeu que a faculdade não oferecia Mestrado, apenas um MBA. Em seguida, leu o texto exibido pela página do site da faculdade. Enquanto escutava o enfadonho recital, eu olhava para baixo, tentando conter o sono e pensando no que poderia fazer no caminho de volta pra casa. Findo o lenga-lenga do emo, agradeci as informações, desejei bom-dia e me pirulitei chuva afora.
Subi a rua interna em direção à Visconde de Pirajá, andei até o Bar 20 e pedi um suco grande de manga.
Tinha a impressão de estar em algum vácuo, sem saber o que fazer e incapaz de tomar uma decisão lógica. Um turbilhão de informações, imagens, sons e sensações rodava em meu cérebro tal qual pirulito de porta de barbeiro em filme de mafioso. Nenhum movimento de minha parte. Nenhum próximo passo. Sozinho com um copo de suco de manga na mão, eu me sentia o perfeito inútil; o pária que não conseguia alcançar as expectativas alheias. O renegado que sempre atraía alternados olhares de suspeita, desconfiança e desprezo.
Cinco mangos pelo suco – mais a caixinha, obrigado – e eu comecei a andar feito um zumbi. De volta para casa, atravessando o canal do Jardim de Alá Akbar, colocando a chave na abertura do portão cinza, cruzando a portaria, entrando no elevador, entrando em casa, caindo na cama, fechando os olhos e desejando que aquilo parasse por mais algum tempo.
Após um ou dois minutos de espera, fui atendido pelo rapaz que se parecia com uma mistura de renegado emo e travesti surrado. Perguntei se a faculdade oferecia algum tipo de mestrado em Comunicação Social. Entre uma e outra cutucada no nariz, o sujeito respondeu que a faculdade não oferecia Mestrado, apenas um MBA. Em seguida, leu o texto exibido pela página do site da faculdade. Enquanto escutava o enfadonho recital, eu olhava para baixo, tentando conter o sono e pensando no que poderia fazer no caminho de volta pra casa. Findo o lenga-lenga do emo, agradeci as informações, desejei bom-dia e me pirulitei chuva afora.
Subi a rua interna em direção à Visconde de Pirajá, andei até o Bar 20 e pedi um suco grande de manga.
Tinha a impressão de estar em algum vácuo, sem saber o que fazer e incapaz de tomar uma decisão lógica. Um turbilhão de informações, imagens, sons e sensações rodava em meu cérebro tal qual pirulito de porta de barbeiro em filme de mafioso. Nenhum movimento de minha parte. Nenhum próximo passo. Sozinho com um copo de suco de manga na mão, eu me sentia o perfeito inútil; o pária que não conseguia alcançar as expectativas alheias. O renegado que sempre atraía alternados olhares de suspeita, desconfiança e desprezo.
Cinco mangos pelo suco – mais a caixinha, obrigado – e eu comecei a andar feito um zumbi. De volta para casa, atravessando o canal do Jardim de Alá Akbar, colocando a chave na abertura do portão cinza, cruzando a portaria, entrando no elevador, entrando em casa, caindo na cama, fechando os olhos e desejando que aquilo parasse por mais algum tempo.
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