segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Este Meu Carnaval Desalmado...



"Padawan que dorme na areia, o Lado Negro da Força leva", já dizia, mui sabiamente, Obi-Wan Kenobi, calejado guerreiro das galáxias e figurinha fácil nas rodas de samba do Beirute da Asa Norte. Os tempos, contudo, são de Carnaval em Pitboyland. E isso significa muita mudança: invasão de turistas (tudo bem, as suecas e moçambicanas estão perdoadas...); multiplicação dos tais choques de ordem (só falta a camisa marrom...); crescimento da hipocrisia política; aparições fantasmagóricas de Jesus "Rain Man" Luz; exagero de minhas idas à lanchonete para tomar um suco de manga gigante; entre outros fatos.
Desde o começo de fevereiro, Pitboyland já funcionava com seus motores a todo vapor para as loucuras de mais um Carnaval.
Este vosso humilde escriba, entretanto, não estava alienado a ponto de adorar o bole-bole do pagode ou o sacode-sacode das nádegas mulatas de alguma musa em algum comercial do Prezunic. Apesar de ter um fraco pela dita mulata, meu corpo não obedecia aos festejos carnavalescos. Era tudo muito corrupto e hipócrita para mim, e eu dispensava toda e qualquer explicação – sociológica, econômica ou cultural – oriunda de mentes ditas "experientes".
"Dane-se o Carnaval!", bravejava eu ao abrir mais uma cerveja e folhear a revista da tv a cabo. "Dane-se o carnaval, e todos aqueles camarotes escravocratas recheados de filhos de uma mesma piranha!!!". Sim, era uma daquelas noites em que a raiva dava uma de Esther Williams viciada em anfetaminas nadando em estilo borboleta na hemoglobina de minhas veias.
Um dos canais de filmes exibia "Efeito Dominó", um desses filmes ingleses baseados em fatos reais. ascândalos envolvendo a realeza, membros do Parlamento, prostiranhas de gosto sueco, aristocracia sado-maso, e um roubo a banco muito do chinfrim; o todo estrelado por Jason Statham, o Ferrobrás de Albion.
Meu ex-advogado – que os Filhos de Ghandi o tenham... – costumava dizer que não gostava de Jason Statham. Não dava muitas explicações, mas fazia questão de marcar muito bem marcado seu absoluto desprezo pelo Alexandre-Frota-Bebedo-de-Guiness. Meu único, digamos, "desacerto" com o ator era saber se ele realmente havia nascido com aquela barba por fazer e aquele olhar de garoto-enxaqueca.
Para dizer a verdade, eu não estava com a menor vontade de escrever. Em meio aos blocos e bailes de carnaval, eu apenas queria curtir o calor noturno, tomar uma cerveja gelada, assistir a algum filme óbvio, escutar hits dos anos 80 e pensar um mínimo na vida que eu levava. Foi escutando um velho – e único – sucesso de Nikka Costa que percebi que eu era apenas mais um sujeito sortudo passando por mais um carnaval de almas alegres e potencialmente decepcionadas com o que encontrariam no final do sambódromo chamado vida. Um governador chorava em uma cela de luxo. A corrida presidencial havia começado havia tempos. Anomalia Brega não sabia dirigir um Porsche. E centenas de piratas somalis na certa transformavam o Chifre da África em um imenso parque de diversões ao som de "Only in my Dreams", de Debbie Gibson.
Ok. Carnaval não era minha praia (ok. A própria praia não era a minha praia...). ainda assim, a situação não era – ao contrário do que muitos diziam – desesperadora. Eu tinha pouco tempo, mas algum tempo assim mesmo. ninguém enchia meu saco após as 22 horas, e os que o faziam logo se arrependiam. Dava pra escutar uma Bonnie Tyler cantar "Here She Comes", ou um Bruce Springsteen entoar alegremente "Workin’ on the Highway". Dava pra ouvir Duran Duran e sua "Is There Anyone Out There", ou a Jim Carrol Band e uma mórbida "People Who Died". Tudo isso era muito bom, muito revigorante; especialmente quando eu pensava no ridículo empregado por grupos de homens na tentativa de levar alguma mulher pra cama por meio de cantadas nauseantes, sorrisos doentios e mentiras de um centavo a peça.
Eu estava muito bem em casa, no meu quarto-escritório, bebendo a enésima cerveja, comendo um amendoim torrado e rabiscando algo nos cadernos e agendas. Até podia me preocupar com o dia seguinte – um domingo de Carnaval... – mas já havia programado metade dele em menos de um minuto. Tal "dom" – ou "maldição"... – não era bem vist por muitos: diziam que era muito sufocante, muito artificial, que não deixava liberdade alguma. Como quase sempre, eu não dava a mínima, e continuava meus afazeres de sempre; lendo, escrevendo, arrumando, desarrumando, escutando, recortando e podando. Pouca gente ligava, e eu saba disso. Era a mesma história havia décadas. Mais dia, menos dia, o Carnaval passaria e a vida voltaria ao normal ao meu redor.
Era isso ou nada.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Desgraça Passageira

Estava a caminho do Rio Sul no balanço violento de um 583 da vida, olhando para os tipos de Ipanema e Copacabana, e tentando descobrir qual a razão de tudo aquilo – se é que havia razão em Pitboyland.
O ônibus parara no ponto em frente à papelaria Cruz, na Nossa Senhora. Pela janela, percebi que havia uma pequena confusão na calçada. Um pequeno grupo de transeuntes se aglomerava ao redor da entrada de uma agência bancária. Aparentemente, uma senhora idosa caíra e, devido ao seu próprio excesso de peso, tivera dificuldade em se levantar da calçada. Logo, dois ou três pessoas lhe prestaram socorro e ela pôde, a duras penas, retomar sua posição relativamente erétil.
O elemento que chamara minha atenção estava, entretanto, acomodado ao lado da porta da agência. Sob um grosso e largo pedaço de cartolina, jazia, nos braços de um Morfeu mais democrático, um morador de rua, que pouco se abalara com o burburinho provocado pela queda da obesa senhora. Sequer levantou seu cobertor em celulose para verificar que bagunça era aquela que ousava perturbar seu sacrossanto e diurno sono. Sequer pôs o rosto para fora e soltou meia-dúzia de palavrões. Educado; mais, talvez, que aqueles que demoraram no auxílio à idosa.
E assim foi.
Vinte segundos se passaram, e o 583 seguiu sua rota.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Carta Aberta ao meu Anjo da Guarda

Caro e Alado Senhor,
Venho, por meio desta, expressar minha surpresa ante uma série de questionamentos ocorridos esta semana, por ocasião de mais uma rodada de cervejas com conhecidos no Beirute da Asa Norte. O fato é que começamos a falar sobre a questão de um anjo da guarda em nossa vidas; e isso independentemente de alguns serem religiosos e outros, ateus convictos. Quando chegou a minha vez de dar minha humilde opinião, a coisa toda foi para o mais absurdo dos beleléus.
Afirmei acreditar, por muito tempo, que meu anjo da guarda era um tal de Uriel (ou Zuriel, dependendo da fonte...). Este último, cujo nome significa "Fogo de Deus", tem bom currículo: querubim, Regente do Sol, Chama de Deus, anjo da presença, responsável por Tartarus (Hades, o Inferno; algo como um carcereiro-mor, responsável pelo aprisionamento dos demônios,dos anjos caídos e afins...), arcanjo da salvação, o mais importante dos anjos no Dia do Julgamento, regente do mês de setembro, anjo que comanda o trovão e o terror; dizem que ajudou a enterrar Adão e Abel no Paraíso, e que foi o anjo que entregou a Noé a mensagem dando conta do Dilúvio próximo. Foi reprovado no Concílio de Roma em 745, mas agora é Santo Uriel, cujo símbolo é uma mão aberta segurando uma chama.
Nada mau, penso eu, para um anjo da guarda.
Mas aí, semanas atrás, recebi um desses emails que me davam a oportunidade de conhecer quem era meu anjo da guarda. Fiz o teste, meio desconfiado das perguntas, e surpreso fiquei quando o resultado deu um anjo de nome Kamael (ou Camael, ou Camiel, ou Kemuel, ou Camniel, ou Cancel, ainda dependendo das fontes...). E olha que esse também não é de se ignorar.
"Aquele que vê Deus" (este é o significado do nome), Kamael é chefe da Ordem dos Poderes e um dos sefiroth. Oriundo das regiões ínferas e possuidor do título de Conde Palatino (ou do Palatinado...), Kamael, quando invocado, surge na forma de um leopardo no topo de um rochedo. Ele personifica a justiça divina, é senhor do planeta Marte e, segundo a mitologia dos Druidas, é Deus da Guerra. Para alguns, é o anjo que lutou com Jacó, para outros, identificado como Gabriel, o anjo que apareceu ante Jesus para Lhe dar força durante Sua agonia no Jardim de Gethsemane.
Importante, não?
De qualquer forma, só tenho a agradecer ao meu anjo da guarda por eu ainda respirar e não ter batido as botas em algum acidente de trânsito, ou por causa de bala perdida, ou até em razão de algum acidente doméstico. As oportunidades, o senhor sabe bem, não faltaram. Só por isso, repito, lhe sou infinitamente grato. Espero, ademais, que tal relação dure por anos a fio.
Atenciosamente,
K.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Asfalto Noturno (algo curto e grosso para os entendidos...)

O taxista tinha um bafo podre e o interior do veículo – seus bancos, seu cinzeiro, seu rádio, seu porta-luvas, seu tudo – exalava um fedor de maconha a ponto de eu me perguntar se minha sorte estava REALMENTE mudando assim que os primeiros e inconfundíveis acordes de "You’re The Inspiration", do Chicago, invadiram o tenebroso ambiente móvel.
Se chegasse em casa inteiro, me daria por satisfeito.

Teresópolis was a No Go...

Fui pego de surpresa. Uma proposta de fim de semana em Teresópolis. Casais de amigos, música, comida, bebida e boa conversa; ou pelo menos essa era a proposta. Respondi que iria pensar. Fui à PUC, peguei um trânsito infernal e, quando voltei pra casa, respondi que não iria, dando a velha desculpa do "valeu, mas acho que vou ficar por aqui...". Certamente não foi a melhor das desculpas. Mas convenhamos: não iria segurar três velas no topo de uma montanha. Não iria ouvir conselhos entre uma e outra piada. Não iria fazer os mesmos planos afoitos e entusiasmados de reencontros, reuniões, viagens e festas de réveillon.
Preferi ficar em Pitboyland, continuar minhas "coisas", dar uma passada no Empório e assistir a filmes antigos. E assim foi, meus amiguinhos. No fim de semana em questão, resolvi assuntos pendentes, me embebedei no mais famoso bar da rua Maria Quitéria e quase queimei minhas retinas ao longo de um festival de clássicos estrelados por Bogart, Bacall, Veidt, Tracy e Astaire.
Os prazeres de Teresópolis ficariam para depois.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

En Passant...

Por uma dessas artimanhas do Destino, possuo dois discos da banda inglesa Transvision Vamp. A vocalista do Transvision Vamp – uma louraça belzebú made in Albion – me faz lembrar de uma garota que conheci melhor no alvorecer do Novo Milênio; irmã de uma outra garota que conheci "bem melhor" no fim do milênio anterior. Ambas brunettes. A primeira garota em questão era chata, mimada, tinha uma voz irritante, trejeitos irritantes, e uma propensão – perigosa, senão letal – para bebida, drogas e sexo inconseqüente. A segunda era mais esperta, mas queria romance e tal. Perdi contatos com as duas, mas não perdi os discos do Transvision Vamp.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Ladras, porém jeitosinhas...

Era um golpe envolvendo o seguro das coisas roubadas que não foram roubadas. Aconteceu em Ipanema e as rés eram duas jovens advogadas made in Camelot. Rebecca e Shanti (sic). Brunette e loira, respectivamente. Foram pegas no flagra, mentindo, graças ao savoir-faire tupiniquim da 14a D.P. (Leblon City). Tiveram seus passaportes confiscados, passaram uma curta temporada na prisão de muchachas (infelizmente, em nada parecida com aquele filme que o SBT exibia na madrugada do sábado para domingo...Suculento, admito) e receberam uma sentença (ou algo que o valha). Nessa novela toda, nada de choro ou de drama shakespeariano. Ambas passaram por tudo com aqueles olhos esbugalhados e aquele ar de "não-sei-oque-está-aconteendo-nessa-Ilha-da-Fantasia", típicos de turistas do hemisfério Norte.
No meio de uma noite regada a White Horse e Original (sim, aqui tem...), liguei para El Brujo pra saber se ele tinha ouvido falar na história policial.
"Pois é. Eu vi na televisão, mas queria ter visto no programa do Alborghetti..."
"Com certeza", disse eu. "Ou então no saudoso Aqui e Agora, com o Gil Gomes entrevistando em inglês..."
"Heeere....and Now."
"Mas como é que essas débeis mentais pensam em fazer isso aqui, né? Logo na terra do Doutorado em Golpe, porra. Tinham mesmo que se dar mal..."
"É. Acham que podem enganar qualquer um. E nem se deram ao trabalho de colocar os pertences em outro quarto, ou algo assim."
"Não passam de ladras..."
"...porém ladras jeitosinhas, diga-se de passagem..."
"Concordo."