domingo, 18 de janeiro de 2009

Another Void...

O apartamento está praticamente vazio. Sala vazia. Quarto vazio. Cama de casal prestes a ser vendida. Sinceramente, não sei como me comportar diante dos objetos que estão indo embora. Na minha “Guantanamo” – o depósito cercado de grades localizado na garagem – não vai demorar para que eu jogue muito papel no lixo; arquivos de pouca utilidade, contas e demais documentos que já passaram da validade.
Vou dormir algum tempo no sofá-cama quebrado até comprar um colchão de casal padrão; o que, no meu caso, não deixa de ser irônico. Vou ter de arrumar outro aparelho de DVD, já que o Home Theatre era da ex. Quanto à procura por um novo – e menor – apartamento, olhei alguns em uma quadra da Asa Norte e gostei do que vi. No dia seguinte, soube que a polícia havia desbaratado uma quadrilha de traficantes de drogas na mesma quadra; mas ninguém foi preso, já que as quantidades encontradas com os membros eram pequenas demais para uma prisão.
Para completar o quadro, assisti a uma reportagem na televisão segundo a qual imobiliárias e construtoras não investiam muito em apartamento de quarto e sala, pois os lucros não eram os melhores. Em outras palavras: meu oásis ainda parece estar longe, enquanto o número de miragens só aumenta.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Mas como ia dizendo...

Eu e El Brujo abrimos uma cerveja. Já passava da meia-noite, o ar estava abafado e Noel Coward despejava uma canção tesuda em meio a livros, discos, contas atrasadas, recortes de jornais e objetos insólitos. A vida certamente tinha seus momentos de revolta, mas isso não a impedia de ter seus minutos de esplendor.
“Isso é único...”, suspirou El Brujo após um gole.
“Com certeza. Eu baixei algumas coisas dele...”
“Eu quase não acho discos desse sujeito em Hardcore Brasília.”
“Ou do Bobby Short...”
“É, mas acho que tenho uma fita com uma gravações do Short no Carlyle...”
“Sei, já ouvi. Eu até procurei um DVD na Barnes&Noble mas não tinha no estoque.”
O silêncio se fez novamente, em respeito a Coward. Mas aquela era Hardcore Brasília, e até pessoas geniais tais como Noel Coward e Bobby Short precisavam arregaçar as manguinhas para serem respeitadas pelos temíveis hombres candangos.
“Que calor filho-da-puta, hein?!”, vociferou El Brujo.
“Ainda bem que existe cerveja gelada.”

Aqueles momentos em que o cérebro pára...

Tive sorte em fazer a bateria do demônio Azulado funcionar. A manhã estava quente, o Demônio Azulado estava um forno e minha paciência estava esgotada. Ainda tinha de levar a ex para o trabalho, já que seu carro sofrera uma tentativa de arrombamento e a porta do motorista exibia um rombo de chave de parafuso. Até pensei que 2009 seria apenas uma repetição de 2008, mas isso era exagero. O Destino não seria tão pouco original comigo. De qualquer maneira, peguei a Esplanada dos Ministérios, deixei a ex no prédio de traços monótonos e voltei para a via que me levaria de volta pra casa. O vento e a música ajudavam bastante, mas eu pensava em absolutamente nada. Nenhum projeto, nenhum desejo, nenhuma forma de alegria com relação à nova fase. Imobilidade cerebral. Neurônios tomando água mineral com gás em um copo com bastante gelo.
Tudo estava calmo em casa.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Hardcore Brasília nas Garras de El Brujo

Após duas semanas em Pitboyland, estava de volta à capital. Pronto para um recomeço daqueles, cheio de coisa pra resolver, mas sempre contando com o apoio do principal embaixador de Hardcore Brasília, El Brujo. Mal havia chegado em casa, coloquei as malas num canto, desci até a garagem e entrei no Demônio Azulado. Quando cheguei ao folclórico prédio de El Brujo, o Mendigo Iluminado estava lá, falando sozinho e fumando um cigarrinho qualquer. “Pois é, essa crise vai levar o mundo pro buraco. Mas não sou eu quem vai cavar...”.
Subi os lances de escada e toquei a campainha. Acho que estava tocando Dean Martin. El Brujo abriu a porta ao mesmo tempo em que segurava uma coxinha de padaria em uma das mãos.
“Voltou, foi?”
“Pois é. Tem cerveja gelada?”
“Porra, abri a última pra acompanhar esta coxinha. Vai lá na cozinha...”
“Valeu.”
A cerveja estava especial. Nada como cerveja em Hardcore Brasília. O papo começou de maneira calma, sem ir com muita sede ao pote. Mulheres, projetos, nacos de desespero e demais medos semanas antes da mudança para outro apartamento. Agora que a ex já arranjou uma kitchnet pra ela, começo a procurar apartamento para mim. Ainda não sei se vai ser um esquema quarto-e-sala ou algo menor. Tenho muitos livros, muitos discos, muito papel, oito estantes ao todo; além dos móveis do escritório, o rack pra televisão, a própria televisão, e um sofá-cama. Até dormiria em um simples colchão no chão, mas até isso está indefinido.
“Já achou algum?”
“Tem um na 314 Norte. Ótimo, pequeno, todas as minhas coisas cabem lá dentro, e ainda é calmo. Só não tem garagem, mas o porteiro segura as pontas e passa confiança.”
“Quanto?”
“Quase 200 paus. Mas acho que o cara faz por menos se pagarmos à vista.”
“Meio caro, mas é um investimento.”
“Com certeza.”
Quando a cerveja e as coxinhas de padaria acabaram, decidimos passar pelo Beirute da Norte. Entramos no Demônio Azulado – que, aliás, após duas semanas parado, começara a dar sinais de cansaço – e pegamos o Eixinho. Não tivemos dificuldade para estacionar. Começamos com uma Original, quatro quibes fritos e uma discussão sobre a polêmica frase da mais recente protegée de Sílvio Santos, Maisa: “...eu gosto de um pobrinho...”.
Afinal, a noite era uma criança.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Escolhas Perdidas em meio a Timidas Explosões

Após muitos anos, passei o Natal e o Réveillon no Rio, com a família. Conhecia os meandros nada agradáveis de outros tempos: canícula infernal, as ruas apinhadas de turistas (nacionais e internacionais), transporte público digno de uma cena de “Duro de Matar”, cobranças de familiares, as mesmas perguntas sobre a minha vida, a nova avalanche de perguntas acerca da separação, e por aí vai. Serviu para esfriar a cabeça e juntar material para textos, desenhos e demais projetos. A ex ficou em Brasília, de pois foi passar as festas em Gramado e demais cidades do Sul.
Eu tinha algumas escolhas para o réveillon. Passar no apartamento do meu primo, me embebedar e falar besteira; passar com a família, no apartamento de frente para o canal do Jardim de Alah, não me embebedar, dormir cedo e ter sonhos molhados; ou ir para uma festa em um triplex no Humaitá, apartamento de gente desconhecida, três festas em uma, três ambientes com três D.J.s, comida e bebida liberada, possibilidade de mulheres fáceis e bêbadas, eu bêbado, e sabe-se lá o que mais o Destino jogasse nas minhas mãos.
Acabei escolhendo a terceira opção. E olha que titubeei. Se não fosse uma decisão amiga, na certa ficaria em casa, pensando besteira, invejando meio mundo e imaginando como seria o meu réveillon perfeito. Mas eu já estava de saco cheio desse esquema. Era meu primeiro réveillon na condição de divorciado, catzo! Depois disso, seria outro esquema, tão ou mais certinho quanto o anterior.
A festa foi decente. Eu me diverti muito em meio a pessoas que se divertiram. Eu não conhecia quase ninguém e quase ninguém me conhecia. Isto é o que eu chamo de equilíbrio.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Mais um Irlandês de Chinelos

Liguei para El Brujo para reclamar da vida e contar as novidades em Pitboyland.
“Então, já encontrou alguma gatinha na praia?”
“Não tive tempo pra isso. Mas comprei uma Havaianas nova.”
“Já foi tomar cerveja naquele pub da Paul Redfern?”
“Também não, mas acho que vou hoje. Aposto que vai estar cheio de gringo.”
Nesta época do ano, os gringos tomavam conta do pedaço. Com ou sem crise, se transformavam em urubus e se juntavam à fauna jovem de Pitboyland, atrás de sexo, cerveja, diversão e exemplos de “você-sabe-com-quem-está-falando” em festas e comemorações coletivas. Com o calor beirando os 38 graus – e mesmo com a probabilidade de temporais para o réveillon –, eu saí para tomar cerveja gelada em algum lugar aberto. Já no caso do pub, a história era diferente. Minha situação de divorciado pouco importava dentro de um lugar abarrotado de estrangeiros e mulheres libidinosas. Eu entrava no pub, sentava em uma das raras mesas vagas, era invariavelmente confundido com algum gringo, pedia um chopp e permanecia no local uma ou duas horas. Bebia umas cinco ou seis canecas, pensava na vida, imaginava os problemas que viriam já em janeiro, e pronto: pagava e voltava pra casa.
“E a virada? Vai passar como?”, perguntou El Brujo.
“Ainda não sei. Tenho algumas opções. Todas elas equilibradas.”
“Sei...”
“Pois é, não quero ficar em casa como um pobre coitado.”
“Tá certo. Vai à luta, caso contrário passam por cima de você...”
“Isso...”
Era muito fácil falar com El Brujo.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Sol, mulheres, cerveja e um universo de ilusões

Estou em Pitboyland. O vôo foi uma merda, após uma temporada de quatro horas em um aeroporto de merda com uma organização de merda. Seis meses atrás, com o divórcio orquestrado, o plano era passar as festas de fim de ano nesta cidade litorânea abençoada com uma vista linda, uma cerveja gelada e uma população de imbecis alienados medrosos. O dito plano, como era de se esperar, foi por água abaixo, na certa sabotado por alguma Iemanjá invejosa. Nada de apartamento vazio, nada de horas noturnas grudado em algum canal da TV a cabo, nada de comer sanduíches de pernil do Clipper o saborear um bolinho de aipim no café da manhã. Nada de levar mulher pra casa, ou convidar os VIPs para ver a queima de fogos em uma sala de frente para a fronteira Ipanema-Leblon. A esbórnia foi para o beleléu, e sequer mandou um cartão postal.
A ordem do dia é esquema família, a pior tortura para um recém-divorciado e seus mirabolantes planos de priapismo, bebedeira e anotações desconexas ao longo do dia. Visita a museus, tempo para descascar ovos de codorna e castanhas, tempo para acompanhar alguém até o supermercado, tempo para ouvir, pela enésima vez, as brincadeiras, reclamações e cobranças por parte de todos. Para completar a visão de Apocalipse, é gente falando sobre dinheiro, parente racista cobrando uma vaga no serviço público e um sem-número de desconhecidos que passam por mim tal qual personagens de algum filme ruim de Coppola.
Até arranjo tempo para tomar um chopp com um amigo em algum pub deserto – coisa raríssima em tempos de invasões bárbaras. Mas não é a mesma coisa. Não tenho tempo para pensar. Não tenho tempo para escrever algumas linhas. (continua...)